veja também: http://www.scielo.br/pdf/rsp/v5n1/15.pdf

Norte e Sul

1. O Norte e os países
ca
pitalistas desenvolvidos

1.1. O Primeiro Mundo - Norte

Este abrange cerca de 15% da população mundial. Estados Unidos, Canadá, Japão, Israel, Austrália, Nova Zelândia e as nações da Europa ocidental.

Suas características principais podem ser assim resumidas:

  • Apresentam uma estrutura industrial completa, tanto de bens de consumo como de bens de capital, o que gera produção e consumo per capita (por pessoa) de bens industrializados elevados.
  • São normalmente as economias que estão na vanguarda da pesquisa e da inovação tecnológica. Os setores de ponta da tecnologia - como a informática, as telecomunicações, a-química fina, os novos materiais, etc, são gerados nesses países.
  • A população urbana é bem maior que a rural, situando-se normalmente acima dos 75% da população total de cada país. Essas sociedades são urbanas e também onde o setor terciário da economia (comércio e serviços – bancos, comunicações, energia, ensino, pesquisa) já substituiu o setor secundário (indústrias) como o grande gerador de empregos e de rendimentos.
  • São países que exportam produtos industrializados e tecnologia avançada, importando basicamente produtos primários (minérios e gêneros agrícolas). Eles em geral sediam as principais firmas multinacionais do planeta (Sony, GM, Shell, Nestlé, Renault, Fiat, etc.) e os principais bancos internacionais.
  • Sua agropecuária ou setor primário da economia ocupa posição extremamente pequena na renda nacional de cada país (menos de 5% do total), embora seja moderna ao utilizar técnicas avançadas de produção, como a biotecnologia e a criação e o cultivo intensivos.

1.2. Sociedades de consumo

As sociedades dos países capitalistas desenvolvidos são comumente chamadas de sociedades de consumo. Tal expressão é usada porque são usufruídos todos os bens e serviços existentes. Mais que em outros países, sejam os ex-socialistas ou os subdesenvolvidos.

Com freqüência, o intenso consumo leva a grandes desperdícios. Nos Estados Unidos ou no Japão, uma família de classe média possui normalmente dois ou três automóveis, televisores e inúmeros aparelhos eletrodomésticos, alguns dispensáveis. Sob pressão da propaganda, compram-se coisas novas e abandonam-se objetos ainda em boas condições de uso. Isso causa um desperdício enorme: tais objetos necessitam, para sua confecção, de ferro, petróleo, manganês, carvão, alumínio, e esses minerais existem na Terra em quantidade limitada. Se cada habitante da América Latina, da África e dos países asiáticos subdesenvolvidos tivesse no futuro um nível de consumo igual ao de um norte-americano - já que atualmente a população desses países consome cerca de vinte vezes menos - provavelmente o mundo inteiro entraria em colapso, devido à enorme poluição e à falta de minérios e de outros recursos naturais.

Os sete países mais industrializados do Primeiro Mundo (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Itália, GrãBretanha e Canadá) que juntos possuem pouco mais de 10% da população do globo, consomem em conjunto mais de 80% dos recursos minerais do planeta. O consumismo e o desperdício são notáveis nessas sociedades.

1.4. Democracia

São suscitadas algumas dúvidas quanto aos motivos do padrão de vida e de consumo da população dos países desenvolvidos. Esses países, historicamente exploraram os países subdesenvolvidos e teriam se beneficiado com a exploração e transferência de riquezas do Terceiro Mundo.
Mas a explicação fundamental para esse padrão de vida relativamente elevado das classes trabalhadoras nos países desenvolvidos é a democracia, com intensas lutas populares, à custa de muitos choques com os patrões e a polícia. E a exploração econômica, na realidade ocorre por grandes multinacionais e bancos.
Não foram os governos e muito menos os capitalistas que diminuíram a jornada de trabalho e ampliaram os salários dos trabalhadores nesses países. Essas conquistas trabalhistas tiveram início no final do século XIX e se estendem até hoje. A verdadeira democracia consiste num Estado de direito que resulta de reivindicações populares. Trata-se de um processo muitas vezes conflituoso e demorado que, uma vez vitorioso, transforma as conquistas em normas legais.
A democracia, não se resume a um regime político com eleições periódicas e sem fraudes, com o direito de ir e vir, com liberdade de imprensa e outras. Isso tudo é importante, mas a democracia de fato vai além: ela consiste fundamentalmente num processo contínuo de invenção e reivindicação de novos direitos. Nos dias de hoje, por exemplo, um Estado de direito democrático deve assegurar os direitos dos consumidores, a qualidade de vida dos cidadãos, o direito das mulheres, das minorias étnicas, etc.


2. O Sul e o Subdesenvolvimento

Se somarmos as nações capitalistas subdesenvolvidas e os países de "economias de transição" mais pobres - como a Mongólia, a China ou o Vietnã , teremos o conjunto denominado Sul, que compreende pouco mais de três quartos da população do globo. As nações do Sul subdesenvolvido estão localizadas quase todas no continente Africano, na América Latina e na Asia. Existem ainda algumas delas na Oceania.

2.1. As origens históricas dos países subdesenvolvidos

Quase todas as nações do Sul foram colônias antes de se constituírem países independentes. Poucas nações, como o Irã e a Turquia, não foram oficialmente colônias, nunca tiveram um governo estrangeiro, mas igualmente prejudicadas indiretamente. Inversamente, nenhum dos países desenvolvidos foi colônia. Mesmo os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia, que teriam sido colônias da Inglaterra durante alguns séculos, na realidade não o foram.
Durante a época moderna, do século XVI ao XVIII, os europeus unificaram a superfície terrestre estabelecendo relações de troca entre quase todos os povos e regiões. Nesse período existiram dois tipos principais de colonização: de exploração e de povoamento.
As colônias de exploração, como México, Brasil, Peru e Bolívia, localizadas geralmente em áreas tropicais, serviram como fonte de enriquecimento de suas metrópoles, países da Europa ocidental. Não eram áreas a serem povoadas e sim fontes momentâneas de riquezas (ouro, prata, açúcar, fumo, algodão, etc.), verdadeiras colônias cujo futuro pouco importava aos colonizadores.
Por outro lado, as colônias de povoamento, como os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia, não foram verdadeiras colônias. Sendo territórios situados na zona temperada, não produziam os gêneros agrícolas tropicais reclamados pelo mercado europeu. O ouro e a prata foram encontrados nos Estados Unidos e no Canadá após a independência, para sorte desses países. Tais áreas temperadas não serviam para os objetivos da colonização (exploração com vistas à riqueza da Europa) e foram deixadas meio de lado e acabaram por constituir a nova pátria dos europeus que saíram do seu continente devido aos conflitos e às guerras. Os europeus que foram até essas áreas temperadas tinham objetivos bastante diferentes: queriam reconstruir o modo de vida que tinham na Europa, adotar uma nova pátria.

2.2. Sociedade e Estado

Nos países desenvolvidos o capitalismo resultou de um processo endógeno (interno), ou seja, desenvolveu-se a partir da própria sociedade. No Terceiro Mundo o capitalismo foi imposto de fora, resultou de um processo exógeno (externo). Essa é uma das principais diferenças entre os países desenvolvidos e os subdesenvolvidos.
Os tipos de sociedade que existiam nos atuais países subdesenvolvidos acabaram sendo destruídos ou submetidos a um novo modelo social criado pelos europeus, visando o desenvolvimento do capitalismo.
A exploração colonial visava à expansão do comércio e à produção de minérios ou gêneros agrícolas baratos para suprir o mercado mundial. Como conseqüência desse objetivo mercantil, o modelo social instituído nas áreas colonizadas foi marcado por extremas desigualdades: de um lado os poucos ricos, a minoria privilegiada ligada aos interesses metropolitanos; do outro, a imensa massa de trabalhadores mal remunerada, intensamente explorada (escravos).
A partir do século XIX, a escravidão começou a atrapalhar o desenvolvimento da economia de mercado, pois o escravo não era comprador e consumidor. Com isso, uma massa de trabalhadores com baixíssimos salários substituiu os escravos. Dessa forma, a intensa exploração da força de trabalho constitui uma das características do subdesenvolvimento.

  • Na América Latina, os europeus desprezaram as sociedades preexistentes e estabeleceram outra, trazendo trabalhadores escravos da África ou a elite dominante da própria Europa.
  • Na Ásia, os dominadores provocaram conflitos entre grupos sociais, conseguindo que as camadas dominantes já existentes fossem coniventes com a economia colonial.
  • Na índia os colonizadores ingleses encontraram uma sociedade extremamente complexa, que tinha um desenvolvimento econômico bastante avançado para a época, com uma produção manufatureira superior à da própria Inglaterra. Mas o que interessava era uma índia compradora de bens manufaturados ingleses e produtora somente de matérias-primas a serem vendidas a baixos preços, os ingleses acabaram destruindo essas oficinas manufatureiras indianas.

2.6. Os diversos grupos de países do Sul

Levando-se em conta tanto o grau de riqueza (principalmente industrialização) de cada país ou grupo de países, como também suas perspectivas para o século XXI, podemos dividir o Sul em três principais conjuntos: a periferia privilegiada, a periferia intermediária e a periferia mais periférica.

  • A periferia privilegiada é formada pelos países mais industrializados do Sul, que possuem ainda um razoável mercado de consumo interno. É um seleto grupo de países subdesenvolvidos que já conseguiu grandes avanços na produção industrial e possui maior viabilidade de desenvolvimento. Podemos distinguir neste conjunto: a China, os "tigres asiáticos" e América Latina.
    A China é um caso à parte, pois poderá se tornar uma das grandes potências do século XXI (junto com EUA, Japão, Europa e talvez a Rússia). A China possui um imenso parque industrial, e a maior população do globo, com baixo poder aquisitivo (per capita 480 dólares). Mas, se houver aumento de consumo com elevação dos rendimentos (com o crescimento da economia), poderá ser o maior mercado de consumo do planeta.
    Os "tigres asiáticos" Coréia do Sul, Taiwan ou Formosa, Hong Kong e Cingapura - são economias dinâmicas, que cresceram nas últimas décadas, bem mais que o resto do mundo em conjunto. O nível salarial e o poder aquisitivo já são maiores que os demais países subdesenvolvidos. A renda per capita em Cingapura, é de cerca de 16 000 dólares, e a distribuição de renda é mais uniforme. Os "tigres asiáticos" exportam produtos de tecnologia intermediária, e ótimos sistemas educacionais (os melhores do Sul) para a maioria da população.
    A América Latina - principalmente o Brasil, o México e a Argentina, e secundariamente o Chile também estão num outro degrau, acima da maioria dos países do Sul. São países bastante industrializados, com rendas per capita intermediárias (2800 dólares no Brasil e 3500 dólares no México) e mercados de consumo razoáveis, que só não são maiores devido às grandes desigualdades sociais. Nestes anos 90, voltam a crescer com intensidade (depois da crise da inflação dos anos 80) e conseguem controlar a inflação, que era a maior do mundo nessa região e contribuía para empobrecer mais ainda a população.
  • A periferia intermediária, são os países do Sul com produção industrial e rendimentos em geral médios, em geral inferiores aos do primeiro grupo mencionado acima, todavia, sensivelmente superiores aos da maioria dos países subdesenvolvidos. Podemos incluir neste grupo: África do Sul, Egito, Turquia, índia, Venezuela, Colômbia, Peru, Indonésia, Filipinas, Tailândia, Arábia Saudita, Kuwait, entre outros. Alguns desses países têm uma renda per capita considerada baixa, em especial a índia (apenas 360 dólares), mas sua produção industrial é bem maior que a dos países subdesenvolvidos mais pobres. Possuem áreas ou setores modernos, que convivem com outras áreas ou setores bem atrasados.
  • A periferia mais periférica, os países mais pobres e menos industrializados do planeta, o chamado "Quarto Mundo". É o grupo de países mais pobres do Sul, que abrange a imensa maioria das nações do Terceiro Mundo. Podemos incluir aí quase todos os países da África, da América Central e da Ásia (nas suas porções sul, sudoeste e, em parte, sudeste): Zâmbia, Nigéria, Guiné Equatorial, Haiti, Nicarágua, Quênia, Tanzânia, Afeganistão, Paquistão, etc. São economias com pouquíssima viabilidade de crescimento real nos anos 90 e início do século XXI. Neles se concentra o maior crescimento populacional do mundo, sem perspectivas. São nações que possuem somente mão-de-obra barata e matérias-primas em geral para oferecer, dois recursos cada vez mais desvalorizados na nova ordem mundial.

Fonte: Vesentini, J. William. Sociedade e Espaço. Ed. Àtica: São Paulo, 1997.